Ria-me enquanto seguia pela rua acima.
Quando se está acordado não há muito para fazer a não ser rir. Rir ajuda a esquecer. A esquecer os pesadelos da noite, a esquecer o medo do dia. Rir é fingir que há heróis e soluções. Rir é desculparmo-nos. Que não, não é por nós sermos óptimos, por fazermos tudo bem, que desaparecem as drogas, os estupros, as mortes.
Não é que o acto de rir seja em si uma droga, um alucinogénico que nos faz ver tudo de uma forma diferente. Não é que a contracção da face em forma de sorriso nos faça de repente esquecer tudo. Não se dá o caso de rir provocar amnésia selectiva. Não, nada disso. É que rir é um pouco o contrário de chorar. Não há ninguém que chore e que não ganhe uma mão no ombro, um comentário amigo, um sorriso de empatia. Não há ninguém que chore que não atraia pessoas preocupadas, assim como conjuturas sobre a vida alheia, mas esse não é o ponto. O ponto é que quem chora atrai pena, compaixão. Preocupação. Por conseguinte atrai curiosidade. As pessoas querem saber o que se passa connosco quando choramos.
Mas se rimos... Se rimos ninguém liga. Se rimos toda a gente se mantém na sua vida. Se rimos ninguém se pergunta se alguém morreu, se alguém foi despedido. Se rimos ninguém pensa em hospitais, em agulhas, em sangue. Se rimos ninguém pensa em motivos para se chorar. Ninguém.
E por isso eu ria-me enquanto seguia pela rua acima. Porque não sei não me rir. Porque nunca gostei de chorar.
